TESOURA, PAPEL, TELA, PINCEL:
AS MULHERES DES(COLADAS) DA BEL.

Foi na sempre inovadora França que, no final do século XIX, surgiram os papiers découpés, pioneiras experiencias plásticas utilizando materiais distintos, em combinação ou não com a pintura, sobre um mesmo fundo (geralmente tela, papel especial ou madeira). Mais tarde, essa arte transcenderia os franceses e conquistaria adeptos em todo o mundo. Nascia a collage. Henri Matisse, tido como um dos entusiastas da técnica, denominou-a como sendo um “desenho com tesoura”.

A Colagem tem significativa e inegável importância na história da arte universal, a partir de 1950. Além do próprio Matisse, outros conhecidos pintores como Jean Arp, Marcel Duchamp, Max Ernest, Kurt Schwitters (dadaístas e surrealistas); Pablo Picasso, Georges Braque, Juan Gris (cubistas); ou, principalmente, Joseph Cornell, Jasper Johns e Robert Rauschemberg (pioneiros da pop art); fizeram da Colagem uma técnica respeitada e valorizada por colecionadores e museus internacionais.

No Brasil, essa bela e instigante arte enfrentou, e ainda enfrenta, equivocados preconceitos. Mas, como tem qualidade, resiste com bravura e ocupa um crescente espaço nos acervos públicos e privados. Entre os nossos mais importantes nomes nessa técnica, estão: Carlos Scliar, Ubirajara Ribeiro, Teresa D`Amico e Nelson Leirner.

Sem falar dos artistas que, em alguns de seus trabalhos valeram-se desse recurso para fortalecer a proposta: Volpi, Aldemir Martins, Darcy Penteado e Alice Brill.

Entretanto, nenhum brasileiro foi tão maior na Colagem quanto Tide Hellmeister, o mestre da desafiadora e complexa técnica, morto em dezembro de 2008. Tide foi um artista que soube dar dimensão à Colagem.

Mas, a vida continua. Surgem, a cada dia, novos artistas que, corajosamente, optam por essa linguagem única para transmitir suas inquietações. Nesse sentido, é importante registrar o incansável e relevante trabalho de Robert Richard, na Associação Brasileira dos Artistas Plásticos de Colagem (ABAPC), que, há décadas, realiza mostras do que foi criado em todo País. Assim, pela disseminação e relevância dos trabalhos que se tornam, periodicamente, conhecidos do público, talentos emergem de seus estúdios para as ruas. Num eterno renascimento dessa arte.

Bel Miller nascida em humilde família gaúcha, criava suas próprias bonecas com retalhos de pano. Usando tesoura, agulha e linha dava asas à imaginação construindo suas personagens de uma infância repleta de sonhos. E também havia cenários, feitos em papelão, com o uso de cola e tinta, dos quais surgiam cidades, escolas e parques nos quais as bonecas interpretavam uma realidade futura. E a magia da criação artística, seguiu viva para sempre nessa artista.

Residindo em São Paulo, já mulher e mãe, Bel abandonou a faculdade de Administração de Empresas e foi estudar decoração de interiores, depois passou pela pintura, escultura, cerâmica, quando, então, descobriu e se apaixonou pela Colagem. Bel é uma pesquisadora atenta, que busca de maneira contínua formas de dar crescente qualidade ao seu trabalho. Sua produção é pequena, cada quadro pode levar um, dois meses para ser produzido.

Bel trabalha cuidadosamente a madeira de suas “telas”, que são tratadas com avançados processos químicos para evitar empenamentos, rachaduras, fungos,etc, tornando-se suaves e eternas como a seda. Na composição do quadro a artista mescla tinta acrílica, cola, lápis, papel, folhas de ouro, oxidantes, lixa, verniz, servindo-se apenas de bons produtos (a maioria importados), que lhe garantem a indispensável durabilidade.

Mas, seu grande desafio é o espaço. Nele, movida apenas pela inspiração, sem arquitetura prévia, a criadora vai ambientando suas (des)coladas mulheres. Porque são elas que povoam o universo criativo de uma sensível e forte Bel, para quem as mulheres são o princípio, o meio e o fim de tudo.

Há meninas, rainhas, santas, pobres, ricas, dominadoras, submissas, grávidas, sexy e, até mesmo, as que permanecem numa caixa de recortes, na prateleira do estúdio, à espera da chance de saltar para uma tela.

Bel apresenta nesta exposição, verdadeiras jóias da Colagem. Obras nas quais observamos a harmonia de suas pinceladas, que se alternam entre a leveza e o peso das cores, dando fundo e contorno aos elementos habilmente inseridos num contexto sempre provocador. Cada composição nos obriga a refletir sobre aquelas mulheres. Qual a origem, quem são, o que estão fazendo, o que pretendem transformar em cada um de nós?

Esmerado grafismo está presente em tudo, proporcionando uma estética que transcende o belo. A paleta é tão rica, quanto a tesoura e a cola também são. O relevo na tela fica imperceptível. Há uma integração entre a pintura e a colagem, sem que uma técnica desmereça a outra. A rigor, existe uma perfeita cumplicidade entre as infinitas variações de texturas presentes, permitindo que o conteúdo determine uma proposta para entender o mundo feminino Bel Miller, recriado à imagem e semelhança da vida.

RICARDO VIVEIROS
Jornalista, escritor e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA).